A melhor aula da minha vida

Professores têm uma tarefa digna e ao mesmo tempo ingrata por ser tão difícil durante a vida: transmitir conhecimento para o maior número de alunos, de diferentes níveis e com interesses diferentes. Para mim, uma coisa é certa: nossa visão arcaica, nos diz que se um aluno não aprendeu o conteúdo, a culpa é do professor.

Nem sempre é. Claro que existem professores desmotivados, que estão lá só para cumprir tabela, no entanto, entre os “momentos mais gratificantes do mundo” está aquele em que você tem matéria com um professor bom. Aquele que tem o dom de ensinar.

As referências mais óbvias, claro, são do cursinho. Didática, brincadeiras e muitas, muitas risadas. E o caminhar do tempo fui percebendo que todos os professores que tive, tiveram suas importâncias particulares durante o período do meu aprendizado.

Faltam palavras para agradecer a minha professora Cecília da 1a. série do Fundamental que me elogiava nas redações e ditados. Sua incansável tarefa de me ensinar palavras que tinham cedilha tem efeito até hoje.

Aliás, eu tenho um respeito enorme por professores do ensino fundamental. Mais do que matéria, eles nos ensinam carácter, por meio de exemplos e atitudes. O que me faz lembrar da professora Marta de matemática do Ensino Fundamental que ficou comigo durante uma prova bimestral, enquanto a abertura da Copa do Mundo de 1994 acontecia e todo o colégio estava assistindo, menos eu. Ela me ensinou que eu sabia a matéria, só estava nervoso.

O professor Alexi de história me ensinou as duras verdades da vida, o professor Kyoji de matemática me ensinou a perseguir os meu sonhos e não ligar para o que os outros diziam. Coincidência ou não, professores de matemática sempre me elogiaram e me suportaram ao longo do meu aprendizado.

Lembro também da professora Dóris de química, que mais do que química me ensinou muito sobre a vida e me deu carinho, não só a mim como toda a classe,   no melhor estilo mãezona.

Com a minha entrada na Poli eu tive a sorte de conhecer um dos melhores professores de Cálculo da história: o Elói. Ele e sua aula dos “1oo limites”, 100 exercícios de limites que salvaram da DP grande parte da classe.

Já no Mackenzie eu tive a sorte de ter o melhor professor de Economia que alguém poderia ter, o Oscar. Carisma, vontade de dar aula, o cuidado de decorar o nome de mais de 60 alunos por classe e o carinho de condensar a matéria em forma de ditado numa forma que todos aprendessem mexem comigo até hoje. Se um dia eu me tornar um professor, com certeza o estilo de dar aula será bem parecido com o dele.

Lista enorme e que com certeza faltarão nomes, mas a todos eles eu agradeço por ser a pessoa que sou hoje e por ter tido a sorte de tê-los como professores nestes momentos da minha vida.

Mas enfim, longos parágrafos e até agora não disse qual foi a melhor aula da minha vida. Pois bem, para seguir o senso comum: foi no cursinho!

Anglo Tamandaré, 2004 noturno, primeira aula de Física B.

Os monitores caminham pela sala do Anglo e um deles leva consigo um projetor. Outro estica o telão para a projeção e mais um testa o som do microfone. 10 minutos de atraso e nada do professor.

De repente, apagam a luz e fecham a porta. Sala no escuro, gritaria, gemidos de sacanagem da turma do fundão fazem o ambiente se tumultuar, quando num milésimo de instante a porta se abre e fecha rapidamente e um vulto entra pisando duro no tablado madeira ecoando o som dos passos.

Que diabos está acontecendo aqui!? – penso eu confuso pelo caos instalado.

Uma voz, que parece ser propagada pelos alto-falantes da sala diz:

– Hoje vocês irão testemunhar um dos maiores milagres do universo! Todos os segredos que envolvem esta maravilhosa dádiva dos céus: A LUZ! – e o projetor se liga num daqueles rompantes de coincidência orquestrada.

– Áudio 1, Áudio 2, Áudio 3 preparem-se! Vamos dar aos nossos alunos a melhor aula de ótica da vida deles. VAI!

– No princípio tudo era o CAOS. De repente, fez-se a LUZ! – a sala no escuro e somente o projetor ligado e quando o vulto que parece ser o professor, ao dizer LUZ, liga uma lanterna. Sim, uma lanterna dessas de pilha.

– A luz – prossegue o professor – se propaga em forma de feixe ou pincéis de luz – e começa a anotar na lousa os nomes dos feixes usando a lanterna como guia, e os CDFs mesmo no escuro começam a anotar. Ele percebe, aponta a lanterna para os CDFs como se fosse uma arma, os cegando, e grita:

– LARGUEM AS APOSTILAS! NÃO É PRA ANOTAR NADA! É para prestar a atenção! Vamos usar as apostilas apenas no final do mês quando dermos todas as aulas.

Como assim? Esse professor é louco? – pensei eu. Tem mais de dez aulas nessa apostila e esse louco que dar 10 aulas de uma só vez?

E ele deu. Foram semanas com aulas dadas no escuro e apenas a luz de uma lanterna e de um projetor para enxergamos o que havia na lousa. Fenômenos óticos eram reproduzidos ali mesmo, sob a luz de uma lanterna. Aquários, prismas, lasers, pó de giz e uma lanterna. Não conhecíamos o rosto do professor. Só conhecíamos sua potente voz e o seu nome Ricieri, que era escrito pelos monitores na lousa no início da noite.

Por semanas foram repetidos os mantras dos fenômenos e jargões óticos. E que quando a matéria parecia terminar, um dos Áudios (nome característico dos monitores do professor) errava o “timing” e numa dessas coincidências orquestradas “pelo destino”, digo, pelo professor, o conteúdo era novamente repassado.

– Não acredito, Áudio 3! Você só precisava apertar o botão do slide no momento certo! Só isso! Por sua culpa, teremos que começar tudo de novo! Do início, VAI! – e a classe bufava por ter que repetir tudo pela milésima vez com o professor.

– No princípio tudo era o CAOS, de repente fez-se a LUZ …

Obrigado Ricieri por tudo o que hoje eu sei de física e por ter me ajudado a entrar na Poli.

P.S.: Ricieri é professor do ITA e vinha de São José dos Campos para São Paulo todos os dias para dar aula para a turma do noturno do Anglo como forma de retribuição, pois foi lá que ele teve condições de entrar em Física na USP.

Anúncios

5 Respostas para “A melhor aula da minha vida

  1. Professores são muito importantes, com certeza. Se pensarmos que passamos grande parte da nossa vida na escola – e boa parte desse período constitui nossa etapa de formação intelectual e psicológica -, entendemos por que os professores são tão importantes.

    Não sou adepta da “didática de cursinho” e não acho que isso influencie nossa empatia com os professores, mas penso que nos identificamos com aqueles que gostam do que fazem e se dedicam. Também gostamos daqueles professores que não se consideram mestres de tudo; eles sabem muito, mas não se acham melhores do que o mundo.

    Todo mundo tem seu(s) professor(es) favoritos e eu poderia listar os meus aqui, mas esse comentário já está muito longo e o mais importante eu deixei para o final:

    Não há nenhum professor de inglês nessa lista? Que preconceito é esse com a área de Humanas? =P

    • Eu tive uma professora de inglês no pré ou na segunda série do fundamental que era de fazer o coração bater mais forte. Não lembro mais o nome dela, mas foi a primeira vez que eu me apaixonei por uma professora na vida. Serve? 😛 No cursinho eu tive aula com o Mitsuo. Ele era um cara bacana, super atencioso! Gente fina mesmo!

  2. Ah, os professores… alguns eu me lembro até hoje, mas não tenho uma aula marcante assim. Os professores que mais me marcaram foram os de Português e História, no ensino fundamental e médio. No cursinho adorava os prof. de Exatas. Apesar disso acabei optando pelas Ciências Biológicas, minha praia mesmo, rsrsrs.
    Lindo post, é sempre bom relembrar os bons professores e os exemplos que eles acabam se tornando para nossa vida.

  3. Nossa, tb tive essa aula de Ótica com o prof. Ricieri, e com toda a certeza a melhor aula que tive em toda minha vida!! Simplesmente show… só quem viu sabe! Fomos privilegiados.
    Graças a ele e a todos os professores do Anglo que eu entrei em Fisioterapia na USP. 🙂

  4. Ana Carolina de Queiroz

    Eu tive essa mesma aula em 1996. Fiquei tão empolgadas que passei o mês contando as aulas pra minha mãe. Esses dias, não lembro porque, ela lembrou que eu da história da aula de física óptica no escuro. Nem eu lembrava mais, muito menos o nome do professor. Mas, pode apostar: ainda lembro da aula e foi exatamente do jeito que vc escreveu!!! Quem bom lembrar desse tempo!!! O cara era fantástico. Obrigada por compartilhar essa incrível experiência e me lembrar dos bons tempos do cursinho. Aproveito pra deixar meus parabéns ao professor Ricieri pelo dia de hoje (15/out/2016). Cruzes!!! Faz 20 anos!!! Valeu, Gáudio.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s