Preço Justo – porque o manifesto não deu certo

Antes de arrecadar um milhão de assinaturas virtuais, um dentre os poucos manifestos lançados no país, infelizmente, a campanha Preço Justo para a redução de impostos de importação de eletrônicos foi para o ralo.

Cinco meses atrás, convicto de que o foco da campanha era errado, já que por trabalhar na área, sou analista de importação, eu sabia que os impostos não eram sozinhos os vilões dos preços abusivos dos videogames e iPads.

Neste meu post que foi publicado no Papo de Homem fui extremamente criticado, por ser “do contra”, aquele que só reclama e não faz nada, de playboy (supuseram que eu tinha dinheiro pra comprar todos os jogos do mundo, quem me dera), de “petista” por defender o governo e seus impostos, sendo que eu afirmava categoricamente que os impostos para videogame eram abusivos pelo fato de serem taxados como jogos de azar e, por fim, de inocente por acreditar que o governo faz políticas para a defesa da sociedade com a manipulação de alíquotas tributárias.

Pois bem, só dando tempo ao tempo para que as coisas ficassem um pouco mais claras, tornando assim, as minhas ideias mais palpáveis.

Governo é realmente o único culpado? Vamos falar um pouco sobre cartel.

Felipe Neto atacou duramente o governo pelos altos impostos de importação ao videogame e se esqueceu do mais simples, quem determina o preço de compra somos nós: os consumidores. Como assim, Raphael? Eu explico.

Veja só, se a Sony determina que venderá o Playstation 3 por R$ 2.000,00 e ainda sim tem forte demanda, ou seja, pessoas continuam comprando, não há motivo para eles baixarem os preços correto? Ainda mais se o seu principal concorrente, a Microsoft, mantiver o preço do Xbox 360 por volta de R$ 2.000,00, como assim o fez,  logo não houve concorrência. Sem concorrência e com pessoas comprando, o preço ficou lá estagnado em R$ 2.000,o0 pra sempre.

Um principal reforço para o meu argumento de que os impostos de importação não eram os principais vilões veio no mês de julho, período de férias escolares, época propícia para venda de consoles, quando ocorreu uma guerra de preços entre Sony e Microsoft.

A Sony baixou o preço do PS3 “temporariamente” para R$ 1.600,00 para ajudar os seus fãs e consumidores queridos para aumentar as vendas e ganhar mercado. A Microsoft, que não é boba nem nada, também baixou o preço para R$ 1.600,00.

Num esforço quase que sobre-humano (mentira eles ainda tinham margem de lucro) para ganhar mercado de forma agressiva, a Sony baixa novamente o preço do console para incríveis R$ 1.400,00.

Pois bem, meus amigos e leitores deste humilde blog, vocês foram garfados em R$ 600,00 por anos e anos e reclamaram do governo, quando na verdade os culpados eram Sony e Microsoft.

Então vocês tiveram a sua primeira aula de cartel.

Qual é a parcela de culpa do governo nessa conta? Um pouco sobre as questões tributárias.

Na época o Felipe Neto disse que um PS3 lá fora custava USD 300,00. Esse é o preço de venda para uma pessoa. Quando a mercadoria chega na alfândega brasileira o valor é menor, porque o importador compra em lotes de grande quantidade. O preço de atacado é muito menor do que o preço de varejo.

Eu chuto que o preço de um PS3 importado pela importadora oficial, na alfândega brasileira, isto é, com custos de frete marítimo e seguro inclusos deva beirar os USD 150,00 por unidade.

Fazendo as contas:
USD 150,00 (preço suposto do PS3)
X      R$ 1,70  (taxa do dólar)
X     161,75% (soma de alíquotas de impostos de importação)
= R$ 667,46 (preço do PS3 na alfândega brasileira)

Isso é um chute. Não sei se custa realmente USD 150,00 a unidade, mas as contas estão aí.

Primeiro, 161,75% é a soma de todos os impostos de importação (II, IPI, PIS, COFINS, ICMS) de entrada já “calculados por dentro”. Sim, porque a tributação brasileira é uma lambança só: IPI é cobrado em cima de II. PIS e Cofins são cobrados em cima de II, ICMS e em cima deles mesmos. ICMS é cobrado em cima de todos os anteriores e pasmem, em cima dele mesmo também. Então eu fiz as contas pra simplificar e cheguei em 161, 75%.

Segundo, R$ 667,46 é o preço de custo do PS3 parado lá na alfândega. O importador tem uma porrada de coisas para pagar e levar o produto até o seu estoque. Tem armazenagem, tem taxas portuárias, taxas de utilização do sistema da Receita Federal (taxa Siscomex), frete rodoviário, seguradora, taxas de cambio, diferenças cambiais, despesas com despachante aduaneiro, impostos sobre a venda do produto, custos da própria importadora como salário, contas de luz e por aí vai…

Eu chuto que a Sony deve vender o PS3 para uma “Americanas e Submarino da vida” por R$ 1.100,00. Mas novamente isso é um chute.

Esses chutes, no fim, são só para exemplificar uma coisa: O que leva um PS3 sair da alfândega com um custo de R$ 700,00 e ir para o revendedor por R$ 1.100,00?  Meus caros, isso se chama “Custo Brasil”. Da mesma forma que existe cartel para formar preços de venda de videogame, existe para preços de armazenagem nos portos do país. O Brasil não tem ferrovias, tampouco hidrovias e utiliza rodovias (a mais cara das modalidades) para escoar as suas mercadorias. E tudo isso só pode ser mudado com políticas públicas e eu tenho a absoluta certeza de que isso não muda do dia pra noite.

E sim, essa diferença de R$ 400,00 é culpa sua por votar mal. Não adianta pedir para o Felipe Neto fazer outras manifestações pedindo hidrovias, maior concorrência portuária, eliminação da burocracia da Receita Federal se quem está no poder não quer nem saber se você existe.

Impostos de importação são bons! Acredite!

Por último eu queria falar sobre o porque dos impostos de importação serem bons em determinados casos. Esse é o caso que dá mais polêmica porque o brasileiro já está cansado de pagar tantos impostos e não ter retorno de nada.

No post do Papo de Homem eu disse e reiterei que os impostos para videogame eram exorbitantes, mas para iPad, iPhones e “ai ai ais” afins não. Por quê?

Videogame, como eu disse, é taxado pelo governo brasileiro como jogo de azar, como caça-níqueis e isso é injusto. Nisso sim, o pessoal da campanha Jogo Justo (campanha mais antiga, que não é do Felipe Neto) estão certos.

Mas veja, impostos de importação servem para  peneirar as importações. O governo analisa se um produto é bom para o país e verifica se a indústria nacional produz aquilo ou não.

Razões para o governo baixar os impostos de importação:

- O produto é essencial? Isto é, a maioria os cidadãos precisam deste produto?

iPad não é, então pararia aqui a questão da necessidade de baixar os impostos, mas vamos fingir que é essencial só por um momento, ok? ;)

- Se é essencial, existem indústrias nacionais que produzem esta mercadoria?

- Se é essencial e existem indústrias que produzem a mercadoria, essas indústrias seriam afetadas pela onda de importações?

Olha que interessante, o governo verifica se tem indústrias nacionais que produzem o produto. Se essa nova onda de importações as afeta diretamente ou não. Se não afetar ele baixa, se afetar ele regula o preço de entrada ajustando as alíquotas. E se mesmo assim afetar muito ele mantém as alíquotas altas.

Por que eu fui contra que baixassem os impostos de importação para iPads e afins (exceto videogame) ? Pelo simples motivo de que é mais cômodo importar o produto do que criar uma indústria, gerar empregos e movimentar a economia local. Dá muito mais trabalho abrir uma indústria aqui do que só comprar lá fora, não acha? Porém o retorno para o país é melhor.

Melhor do que dar dinheiro para EUA, Japão e China somente. E não venha falar que se baixasse os impostos, importaríamos mais e assim se arrecadaria mais. Esse sim é um pensamento inocente, pois o mais importante é gerar empregos e movimentar a economia local. Assim governo ganha, sociedade ganha, fabricantes ganham. Se você só importa, você exclue a sociedade da divisão de benefícios.

Se o governo tivesse aberto as pernas o mercado para a indústria de eletrônicos, as indústrias não viriam para o Brasil por ser cômodo só importar. Hoje temos fábricas que montam iPads, iPhones e Xboxs (cadê você, hein Sony?) em solo nacional. Entendeu agora Felipe Neto?

Só pra não dar brechas para mimimis, eu sei que impostos de importação podem ser ruins também, vide o caso do aumento de IPI de importação para carros importados. A Jax Motors, a Chery e outros fabricantes de carros asiáticos estão arrebentando no mercado brasileiro com os seus carros baratos e bem melhores que os nacionais. O governo aumentou o IPI numa clara ação de protecionismo, que beneficiou empresas que são principais patrocinadoras de, cof cof, campanhas eleitorais. Enquanto isso, freio ABS lá fora é item de série, aqui ainda é artigo de luxo meus caros.

Parafraseando o professor Pasquale Cipro Neto: é isso.

[update: atualizei os valores das contas porque saiu uma notícia dizendo que o PS3 custa USD 250,00. Claro sinal de que o pessoal tinha margem de lucro com folga pra reduzir o preço de venda. Isso me ajuda a chutar um valor mais "real".]

[update 2: conta para iPad 64 Gb + 3G do Felipe Neto]:

USD 500,00 (preço suposto do iPad)
X      R$ 1,70  (taxa do dólar)
X      78,76% (soma de alíquotas de impostos de importação)
= R$ 1.519,46 (preço do iPad na alfândega brasileira)

Chuto que a Apple vendia para os revendedores entre R$ 1.900,00 e R$ 2.000,00, sendo que o preço final de venda era de R$ 2.400,00.

Lógico que tudo é chutômetro. Não tenho a menor ideia dos valores praticados para importação e revenda dos fornecedores citados. O intuito é só mostrar a parcela da conta do governo.

5 respostas para Preço Justo – porque o manifesto não deu certo

  1. Antes de mais nada, deixa eu discordar do primeiro parágrafo. O Brasil não tem poucos manifestos, tem muitos, mas todos muito inúteis. Brasileiro tem a mania de fazer abaixo-assinado para tudo, achar que está fazendo um bem enorme, mas, no fundo, está nadando e morrendo na praia. Sem contar os inúmeros protestes sem fundamento, como “Fora, Ricardo Teixeira”. Não que o cara não seja corrupto, mas a CBF é uma instituição privada e o cara foi eleito para comandá-la. Precisa ser investigado? Precisa. Mas protesto para tirar político corrupto, alguém que influencia DIRETAMENTE a vida de TODOS os brasileiros, ninguém faz.

    Pois bem, depois dessa introdução enorme, só digo que não posso comentar a parte numérica desse post porque não entendo lhufas de importação ou economia, mas era notório que a campanha do Felipe Neto era infundada. Primeiro porque a causa era ridícula. Como você mesmo disse, videogame e produtos Apple não são itens extremamente necessários para o povo brasileiro. Segundo, porque Felipe Neto queria chamar a atenção, só isso. Apesar de não gostar dele, não dá para negar que o cara sabe como causar na Internet.

    Isso posto, parabéns pelo post e que você continue escrevendo. Seu blog estava muito parado. =P

  2. Acho que cada um deve lutar por aquilo que acredita. Mas tem que ser de maneira séria, ter objetivos claros, senão é como sair em alto mar sem uma carta de navegação, o propósito acaba se perdendo.
    Passaram-se os meses e o que o tal de Felipe Neto fez com o seu abaixo-assinado? Tanto barulho… pra nada? Só para chamar a atenção? Nenhuma satisfação? Tsc, tsc.
    Esse negócio de economia é de outro mundo, sinceramente não consigo entender. Na teoria os impostos de importação podem até ser louváveis mas tem muita coisa por trás e que não devem cheirar muito bem.
    Sobre criar indústrias no país isso é bom? Claro que é, isso gera empregos, faz a economia rodar. Mas mesmo assim ainda estamos enviando dinheiro para fora, pois a tecnologia não é nossa. Falta o básico, que é a formação de mentes capacitadas, enquanto isso somos dependentes de tecnologias mais avançadas e continuamos como meros exportadores de matérias-primas.

  3. Em relacao a precos de eletronicos, a margem de lucro eh muito pequena, se um PS3 e vendido no varejo por 1.500 provavelmente o comerciante pagou 1.300, no comercio de eletronico vc ganha no volume, no caso de videogame (PS3 e Xbox) eles colocam o preco q eles quiserem pois nao existe concorrencia nesse mercado, vc pode ver q as TVs estao cada vez + baratas devido a concorrencia.
    Agora falando em relacao ao comercio exterior no ambito politico, sinceramente poucos brasileiros conseguem realmente entender e analizar a politica para o comex, a movimentacao de importacao e exportacao no Brasil nao passa de 3% do PIB nacional, oq isso significa? Q o Brasil apesar de ser o maior exportador agricula do mundo, isso nao se reflete em “cash” dindin, porem o Brasil tem materia-prima e produtos agricolas como cafe, laranja e gado, q sao de grande interesse para paises desenvolvidos como Alemanha, EUA e Japao, o governo acaba usando suas commodity como produto de barganha politica.
    O imposto de importacao tbm e alto em outros paises, logico nada comparado ao Brasil, e ele eh determinado por uma unica palavra PROTECIONALISMO, eh uma forma de o pais proteger a sua industria ou produtor de determinado produto, + tbm eh uma forma de fazer politicagem e manter um superavit ou seja exportar + do que importar.

  4. Nunca vi tanta besteira escrita junta como essa publicação. Um monte de “chuto” daqui e “chuto” de lá! Se for para achar não escreva, vai procurar fontes seguras.
    O Felipe Neto falou desses produtos como exemplos, mas isso acontece com todos os produtos, os essências também.
    Absurdo o tanto de imposto que pagamos, para quê? Para sustentar mais 7 mil vereados, viagem e hospedagem do poder público.
    Se o imposto é importante então não vamos tirá-lo, mas coloque as claras. Um exemplo é no EUA, vc paga o imposto na hora da compra, vc realmente sabe quanto de imposto está pagando pelo produto.
    Agora não vem falar um monte de asneira e cheio de “chuto” “chuto”.

    • Lidia,

      Assim como 99,9% dos fãs do Felipe Neto, você leu o meu texto apressadamente e deduziu ideias erradas sobre mim.

      Perceba que o meu texto trata de IMPOSTOS DE IMPORTAÇÃO e o que eles representam no valor do produto. Sobre os outros impostos que são taxados nos produtos nacionais eu não quero perder tempo discutindo isso, pois temos a mesma opinião. Também considero injusto e acredito que a população deveria saber na hora em que compra o produto, quanto está pagando de impostos sobre ele.

      Perceba também que eu chutei os valores de custo de produto, pois não tenho como saber isso, mas acertei com precisão sobre as alíquotas de impostos pois sei do que estou falando.

      O exemplo do Felipe Neto se aplica aos produtos essenciais também? Desculpe-me mas agora você falou uma tremenda bobagem. Produtos essenciais possuem reduções de impostos de importação. Arroz, feijão, frutas e alimentos da cesta básica pagam 0% de imposto na entrada. Produtos que não existem aqui e que são absolutamente necessários para a produção fabril também. Não ponha os seus desejos de consumo na mesma cesta dos produtos essenciais e pare de repetir o que todo mundo fala.

      PS: O site do Preço Justo Já foi desativado. Pelo visto, o Felipe Neto não tinha tanto engajamento assim com a causa e com essas ideias que você tanto defende agora.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s